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Ano Paulino:

O JUDEU PRATICANTE

Do nascimento aos 28 anos de idade

 

A Bíblia informa muito pouco sobre este período, o mais longo da vida de Paulo. A maior parte das informações usadas foi tirada dos outros escritos da época, tanto judaicos, quanto gregos e romanos.

 

  1. Lugar e ambiente onde Paulo cresceu e se criou

 Paulo nasceu em Tarso, na região da Cilícia, Ásia Menor, atual Turquia (At 9,11; 21,39; 22,3). Cidade bonita, grande; conforme os cálculos de alguns estudiosos tinham mais ou menos 300.000 habitantes. Muita gente, ruas estreitas, casas pequenas, vida apertada, muito barulho! Para o Sul, a cidade se abria para o mar Mediterrâneo; para o Norte, se espremia ao pé de uma serra que subia até três mil metros de altura. Tarso era um centro importante de cultura e de comércio. Possuía um porto muito ativo. A estrada romana que fazia a ligação entre o Oriente e o Ocidente passava por lá.

Como é que Paulo, sendo judeu, foi nascer numa cidade grega da Ásia Menor? Da mesma maneira como os nordestinos, que nascem em São Paulo! Desde o sexto século antes de Cristo, houve muita migração de judeus para fora da Palestina. Em quase todas as cidades do Império Romano havia bairros judeus, cada um com sua sinagoga e organização comunitária. Eles formavam assim chamados diáspora (dispersão).

Havia uma comunicação muito intensa entre Jerusalém e a diáspora; romarias, visitas, promessas, estudos... Jerusalém era o centro espiritual de todos os judeus. Assim se entende como Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusalém (At 22,3; 26,4-5). Ele mesmo dizia: “Todos os judeus sabem como foi minha vida desde minha juventude e como, desde o início, vivi no meio do povo em Jerusalém” (At 26,4).

Nascido numa família judaica, Paulo foi criado dentro das exigências da Lei de Deus e das “tradições paternas” (Gl 1,14). Os judeus da diáspora eram judeus praticantes. Sua preocupação maior era a observância da Lei de Deus. Por isso lutavam contra aquelas leis e costumes do Império Romano que dificultavam ou impediam a observância da Lei de Deus; por exemplo: prestar culto ao imperador, trabalhar no dia de sábado, prestar serviço militar. Deste modo eles conservavam viva a obrigação de serem “a nação consagrada, propriedade particular” de Deus (cf Ex 19,3-8) e se mantinham “separados”, diferentes dos outros povos (cf Esd 10,11; Ne 9,2; Esd 9,1-2). Por causa disso eram hostilizados e perseguidos (cf At 18,2). Mas eles carregavam a cruz da diferença como expressão da vontade de Deus.

 

Paulo nasceu e cresceu nesse ambiente protegido e rígido do bairro judeu. De lá olhava para o ambiente aberto e hostil da grande cidade grega. Estes dois ambientes marcaram sua vida. Ele tinha dois nomes, um para cada ambiente: Saulo, o nome judaico (At 7,58), e Paulo, o nome grego (At 13,9), Ele mesmo prefere e assina Paulo. Deus o chama de Saulo (At 9,4).

 

2, Juventude e formação

 

Como todos os meninos judeus da época, Paulo recebeu sua formação básica na casa dos pais, na sinagoga do bairro e na escola ligada à sinagoga. A formação básica compreendia: aprender a ler e escrever; estudar a Lei de Deus e história do povo; assimilar as tradições religiosas; aprender as orações, sobretudo os salmos. O método era: pergunta e resposta; repetir e decorar; disciplina e convivência.

Além da formação básica em Tarso, Paulo recebeu uma formação superior em Jerusalém. Estudou aos pés de Gamaliel (At 22,3). Esse estudo tinha as seguintes matérias:

  1. A Lei de Deus, chamada Tará: compreendia os cinco primeiros livros da Bíblia (o Pentateuco)
  2. A Tradição dos Antigos: atualizava a Lei de Deus para o povo.
  3. A Interpretação da Bíblia, chamada Midrash. Midrash significa busca. Ensinava as regras e o jeito de se buscar o sentido da Sagrada Escritura para a vida do povo e das pessoas.

A leitura da Bíblia era eixo da formação. Marcava a piedade do povo. “Desde criança” (2Tm 3,15), os judeus aprendiam a Bíblia.

 

Enquanto Paulo estudava em Jerusalém, vivia em Nazaré um outro jovem, chamado Jesus. Era pobre. Não teve condições de estudar em Jerusalém. Para sobreviver, trabalhava na roça e na carpintaria. Paulo e Jesus, os dois, ao que parece, nunca se encontraram em vida (cf 2Cor 5,16). Jesus era de cinco a oito anos mais velho que Paulo. Os dois devem ter recebido a mesma formação básica em casa, na sinagoga e na escola ligada à sinagoga.

 

  1. Profissão e classe social

Paulo era fabricante de tendas (At 18,3). Conforme os costumes da época deve ter aprendido a profissão do próprio pai. Tal aprendizado começava aos treze anos de idade e durava dois ou três anos. O aprendiz trabalhava de sol a sol e obedecia a uma disciplina rígida. Aprendia a profissão, ou para ter um meio de vida como trabalhador, ou para suceder ao pai como administrador dos negócios. Isso dependia do tamanho da fortuna do pai. Qual era o fortuna do pai de Paulo?

 

Paulo fazia questão de dizer que era Cidadão Romano (At 16,37; 22.25), e que tinha esse direito “de nascença” (At 22,29), isso é, recebeu-o do pai! Quer dizer que o pai ou avô de Paulo conseguiu apropriar-se da Cidadania Romana a ponto de poder passá-la para os filhos! Isso requeria “vultosa soma de dinheiro” (At 22,28). Alguns estudiosos concluem que o pai deve ter sido dono de uma oficina com empregados. Por isso, é provável que Paulo tenha aprendido a profissão não tanto para ter um meio de vida como trabalhador, mas muito mais para administrar a oficina do pai como proprietário.

 

Como cidadão, Paulo era membro oficial da Cida (polis) e podia participar da assembléia do povo, onde se discutia e se decidia tudo que dizia respeito à vida e à organização da polis (cidade). Daí vem a palavra política. Naquele tempo, as cidades tinham muito mais autonomia do que hoje. A sociedade tinha três classes básicas: cidadãos, libertos e escravos. Só os cidadãos eram considerados povo (demos), e só ele podiam participar das assembléias. Os escravos, os libertos e os estrangeiros eram excluídos de qualquer participação.

Cidadão Romano, Cidadão de Tarso (At 21,39), aluno de Gamaliel, formação superior, líder nato, membro ativo da comunidade, formado muito provavelmente para tomar conta da oficina do pai: todos esses títulos e qualidades situam Paulo entre a elite da sociedade, tanto por formação quanto por posse e liderança. Paulo tinha diante de si um futuro promissor e a possibilidade de uma carreira brilhante. Mas a entrada de Jesus em sua vida modificou essa situação vantajosa. O que era lucro se tornou perda (Fl 3,7). Por causa de Cristo perdeu tudo. Ele mesmo dera mais tarde: “Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e estar com ele” (Fl 3,8)

 

  1. O ideal do judeu praticante

Paulo sempre foi um homem profundamente religioso, judeu praticante, irrepreensível na mais estrita observância da Lei (Fl 3,6; At 22,3), “cheio de zelo pelas tradições paternas” (Gl 1,14). Para defender essas tradições, chegou a perseguir os cristãos (At 26,9-11; Gl 1,13). Numa palavra, Paulo procurava realizar o ideal da religião de seus pais.

 

O CONVERTIDO FERVOROSO

dos 28 aos 41 anos de idade

 

A Bíblia fornece poucas informações diretas sobre o segundo período da vida de Paulo. Usamos sobretudo as informações indiretas que transparecem nas entrelinhas das cartas de Paulo. Elas são como janelas abertas. Deixam entrever algo da riqueza desses treze anos da sua vida.

 

A queda na estrada de Damasco

 

Paulo estava com 28 anos de idade. Tinha poder e prestígio. Em nome do Sinédrio liderava a perseguição contra os cristãos. Pediu licença para persegui-los até em Damasco da Síria, a mais de 200 quilômetros de distância (At 9,1-2; 26,9-12). Sete dias de viagem! Enquanto caminhava para lá, de repente, uma luz aparece. Paulo cai e ouve uma voz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). Paulo estava perseguindo a comunidade dos cristãos. Mas Jesus pergunta: “Por que me persegues?” Jesus se identifica com a comunidade! Colocando-se do lado do perseguido, desaprova o perseguidor!

Paulo parece o fulano que tomou o ônibus, pensando poder seguir nele até o ponto final de sua viagem. Mas, de repente, o ônibus parou, o motorista gritou: “Ponto final! Desce todo mundo!” Era o ponto final do ônibus, mas não da viagem. Paulo teve que descer. Inesperadamente, encontrou-se sozinho, sem rumo, perdido no meio do caminho, perto de Damasco.

A queda na estrada de Damasco foi o divisor das águas. A vida de Paulo divide-se em antes e depois. A entrada de Jesus não foi pacífica, mas sim uma tempestade violenta. A Bíblia usa algumas imagens para descrever o que aconteceu: duas de Lucas para seguir a semelhança entre Paulo e os profetas, e duas do próprio Paulo.

 

1. Queda. Deus não pediu licença: entrou sem mais, e o derrubou (At 9,4; 22,7; 26,14). Como Jeremias, Paulo podia dizer: “Seduziste-me, Senhor, e eu deixei seduzir. Dominaste-me e me derrubaste” (Jr 20,7). Caído no chão, ele se entrega. O caçador foi alcançado, vencido pela caça! É dessa imagem da queda que vem a expressão “cair do cavalo”. Não há cavalo na história da conversão de Paulo. Só há queda. Muito mais violenta do que cair de um cavalo!

 

2. Cego. Uma luz o envolveu (At 9,3). Como Ezequiel, Paulo caiu por terra ao ver a luz da glória de Javé (Ez 1,27-28). Luz tão forte que ele ficou cego. E cego ficou, três dias, sem comer nem beber (At 9,8-9). São os três dias de escuridão e de morte que antecedem à ressurreição! Inverteram-se os papéis. O líder teve que ser conduzido pela mão dos seus liderados (At 9,8). Paulo só começou a enxergar quando Ananias impôs as mãos e disse: “Saulo, meu irmão!” (At 9,18). Ressuscitou no exato momento em que foi acolhido na comunidade como irmão! Morreu o perseguidor, ressuscitou o profeta!

 

3. Aborto. A imagem é do próprio Paulo, que diz: “Por último, Jesus apareceu a mim, que sou um aborto” (1 Cor 15, 8). O seu nascimento para Cristo não foi normal. Deus o fez nascer de maneira forçada. Paulo foi arrancado de dentro do seu mundo, como se arranca uma criança do seio da sua mãe por meio de uma operação.

 

4. “Fui apanhado!” Esta imagem também é de Paulo. Ele diz: “Procuro apanhá-lo, assim como eu mesmo fui apanhado por ele” (FL 3,12). É como se deus estivesse atrás de Paulo com um laço na mão e, de repente, o apanhasse pelo pé e o derrubasse no chão.

 

Queda, cegueira, aborto, laço! Estas imagens falam por si. Deixam transparecer algo que Paulo viveu. Sugerem a ruptura que houve. Revelam o fracasso do sistema em que ele vivia. Apareceu o nada de Paulo, de onde vai nascer o tudo de Deus! “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).

 

O MISSIONÁRIO ITINERANTE

dos 41 aos 53 anos de idade

 

A Bíblia fornece muitos dados sobre este período. A maior parte das informações usadas vem da própria Bíblia: das cartas de Paula e dos Atos dos Apóstolos. Uma outra parte, menor, vem das pesquisas científicas em torno da situação do povo da época.

 

Aconteceu em Antioquia. A comunidade estava reunida para uma celebração. De repente, “o Espírito Santo disse: ‘Separem para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei’. Então jejuaram e rezaram; impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo, e se despediram deles. Enviados, pois, pelo Espírito Santo, eles partiram” (At 13,2-4). Assim começou o terceiro período da vida de Paulo, o mais conhecido dos quatro.

 

Quando Paulo tinha 28 anos, foi Deus quem interferiu e o arrancou do mundo em que vivia. Agora, aos 41 anos, é a comunidade que interfere e o manda sair do lugar onde vive, para andar pelo mundo e ser porta-voz do Evangelho. Não foi Paulo quem tomou a decisão. Foram os outros, a comunidade. Ele obedeceu e foi. Aquela decisão da comunidade mudou o rumo da Igreja para sempre! Mudou também o destino de Paulo e o jogou no centro dos conflitos que vão marcar o resto da sua vida.

 

  1. Como Paulo viajava pelo mundo

“Fiz muitas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar” (2Cor 11,26-25).

 

1.1  Os amigos

Paulo nunca viajava só, mas sempre acompanhado por algum amigo ou grupo de amigos. Na primeira viagem, foi com Barnabé e João Marcos (At 13,3.5). Na segunda, depois da briga com Barnabé, viajou com Silas (At 15,36-40) e, mais tarde, com Timóteo (At 15,1-3) e Lucas. Saber-se que Lucas entrou na equipe porque, de repente, ele escreve: “Nós seguimos... (At 16,11). Se Lucas diz nós, é porque ele mesmo fazia parte do grupo. No fim da segunda viagem, vários outros entraram na equipe, inclusive o casal Priscila e Áquila (At 18,18). Na terceira viagem, os companheiros foram muitos (At 19,22; 20,4.5; 21,16).

Paulo viajava com os amigos não só por causa da segurança, mas também pela necessidade que sentia da comunidade, mesmo viajando. Pois anunciava a Boa Nova não em nome próprio, mas em nome da comunidade que o delegou para isso (At 13,1-3; Gl 2,9) e da qual recebeu a tradição (1Cor 15,3)

Os amigos participavam de tudo, até das cartas que Paulo escrevia.

 

  1. Paulo, o organizador preocupado com o futuro das comunidades

 

Paulo tinha 52 anos quando foi preso na praça do templo. Ficou na prisão durante quatro anos: dois em Cesaréia, na Palestina (At 24,27), e dois em Roma, na Itália (At 28,30). Depois, foi solto e viveu mais cinco ou seis anos, até à nova prisão que o levou à morte.

Pouco sabemos do que ele fez nesses anos, entre as duas prisões. Esteve em Éfaso, onde deixou Timóteo como coordenador (1Tm 1,3). Passou pela Macedônia (1Tm 1,3), por Trôade (2Tm 4,13) e Mileto (2Tm 4,20). Escreveu uma carta para Timóteo dizendo que queria encontrá-lo novamente em Éfaso (2Tm 3,4). Na carta aos Romanos manifesta o desejo de ir à Espanha (Rm 15,28). Não sabemos se, nesses cinco ou seis anos, chegou a realizar o desejo. Uma coisa é certa: Paulo andou pelas comunidades, cuidando de organizá-las, preocupado com o futuro.

 

  1. A morte de Paulo

No fim deste período, Paulo é preso, novamente, e conduzido para Roma. É o período da perseguição de Nero. Arma-se a tempestade. Na primeira vez, havia gente para recebê-lo em Roma (At 28,15). Desta vez, não havia ninguém. Paulo prevê sua condenação (2Tm 4,16) e sente o fim perto: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, conservei a fé” (2Tm 4,7).

Uma certeza o acompanhou na vida: “Sei em quem coloquei a minha fé!” (2Tm 1,12). Às vezes era uma certeza obscura que não se via, “pois caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5,7). Apoiado nela, teve a coragem de enfrentar a morte, sabendo que Deus seria suficientemente forte para vencer nele a morte. “Estou convencido de que nem a morte é capaz de nos separar do amor de Deus que se manifesta em Cristo Jesus” (Rm 8,38.39).

 

Paulo soube corresponder à graça. Procurou ser fiel. Viveu sua vida em ação de graças. Foi homem de muita oração Apesar da sua grandeza, teve seus limites e falhas. Ele próprio nunca as negou, mas aceitou-as, também com ação de graças. E disse: “Quando sou fraco, aí é que sou forte! Não eu, mas a graça de Deus em mim! E a sua graça dada a mim não foi estéril” (2Cor 12,10; 1Cor 15,10)

 

A morte pela espada foi o último conflito que ele enfrentou. Tinha mais ou menos 62 anos de idade. Sua vida foi intensa. Deixou marca na história da humanidade.

 

 

Fonte: CARLOS MESTERS, Paulo Apóstolo – um trabalhador que anuncia o Evangelho; Ed. Paulus.

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