Por Renata Pedroso Santos

Psicóloga (CRP 03/1238)

 

Desde que somos concebidos, nosso ser está em constante formação e transformação e essa jornada é marcada por algumas fases tanto físicas quanto psicológicas e isso faz parte da natureza.

Primeiro, na gestação somos seres aquáticos, mergulhados no líquido amniótico e somos um ser em simbiose com aquela que nos gera. Ao nascer, somos bebês indefesos, totalmente dependentes de cuidados que atendam às nossas mais diversas necessidades: alimento, higiene, sono, segurança e também afeto, atenção, amor.

Imaginando um desenvolvimento que tenha tais necessidades atendidas, o bebê evolui para se tornar uma criança, que começa a perceber a si mesma como um ser separado do mundo. Começa a ser inserida na linguagem, na cultura e assim vai dando contorno à sua experiência. E a necessidade de cuidados continua, mas também cresce a necessidade de explorar o mundo com segurança, com confiança.

Porém, se essas etapas que antecedem a adolescência não forem bem consolidadas e não contribuírem para uma boa autoestima, a entrada na adolescência pode se tornar um período bastante traumático. Na adolescência inicia o que chamamos em psicologia analítica de “A Jornada do Herói”. Existe um caminho a ser construído e ao mesmo tempo trilhado e só a/o adolescente pode ser protagonista da própria vida. A entrada na adolescência é como um novo nascimento: aquele ser dependente e submisso da infância não existe mais.

Nessa fase, faz parte do desenvolvimento e da construção da personalidade o afastamento das figuras parentais e a identificação com a turma. O adolescente começa a ter questionamentos mais profundos sobre o que é a vida, começa a questionar a sociedade, a religião, entre outras coisas e isso não é algo que foge da “normalidade”, mas faz parte da evolução do pensamento abstrato. Os pais já não são vistos como as únicas figuras de referência, pois um mundo muito maior se abre diante dos jovens, que podem se identificar com um personagem de filme, uma atriz, uma heroína e herói e na verdade eles buscam essas figuras de identificação até mesmo para projetar seu próprio mundo interno. Há muito mais possibilidades de ser e fazer do que aquelas que aprenderam durante a infância.

Porém, caso os cuidadores não tenham eles mesmos desenvolvido e diferenciado a sua própria personalidade, os conflitos inter geracionais poderão se estabelecer e dificultar a passagem desse jovem para a vida adulta. O jovem precisa ser escutado e quando não encontra adultos com os quais possa falar abertamente o que sentem e pensam, o papel do grupo se torna ainda mais forte, pois é lá que os adolescentes se sentem acolhidos, ouvidos, compreendidos, pertencentes.

Portanto, nessa fase da adolescência uma estratégia de cuidado é manter um diálogo aberto e acolhedor para que esta ou este adolescente se sinta seguro para revelar-se e se sinta aceito e amado como realmente é, o que vai fortalecer e solidificar sua autoestima e autoconfiança para lidar com as adversidades. O diálogo e a comunicação assertiva são essenciais para que essa etapa da vida cumpra o seu papel: facilitar o desenvolvimento de pessoas capazes de realizar seu potencial único e colocá-lo a serviço do desenvolvimento da sociedade.

A adolescência e o processo de construção de si

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