Saber cuidar para novos tempos – I

 

O título acima faz parte de uma série de discussões e reflexões a partir de uma perspectiva de urgências. Há algumas décadas em todo o planeta e na humanidade apontam sintomas que sinalizam grandes devastações ambientais, e hoje, segunda década do século XX uma pandemia assola a humanidade, talvez um primeiro ensaio para outras que pode vir caso não fizermos, como humanidade, mudanças drásticas na relação com a natureza e com o modo de vida que estamos vivendo, a grande questão será o pós-covid-19.

 

No que se refere ao modo de vida, o sintoma mais doloroso revelado e denunciado por analistas e pensadores contemporâneos é um difuso mal-estar da civilização:

 

- O consumo confundido por consumismo e até enaltecido pela indústria do marketing e propaganda;

 

- Um individualismo sem precedentes minando todas as bases da cooperação entre os indivíduos, uma vida voltada quase que totalmente para a exterioridade e superficialidade;

 

- Assiste-se ao retorno da intolerância e do autoritarismo de grupos sociais e políticos se opondo aos direitos humanos, uma conquista cara a humanidade desde os primórdios da civilização sob a influência do ethos* espiritual do Cristianismo.    

 

- O retorno do religioso e do místico, que, se há elementos positivos para o sentido da vida, entretanto, muitas dessas experiências foram apropriadas pelo oportunismo e charlatanismo, como pelo mercado que torna-se negócio e oportunidade de ganhos, assim a religião se transformou em mercadoria e a práticas de fé espetacularizadas e caricaturizadas.

 

Tudo isso aparece sob o fenômeno do descuido, do descaso e do abandono, numa só palavra, a falta de cuidado. Existem leis cósmicas espirituais do qual a existência e a vida fazem parte, como diz a sabedoria antiga, “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”, o Cristo vivo, João 1: 14,  Deus-homem é a revelação suprema dessa realidade, do qual há um tempo parece que a cultura e a humanidade esqueceu. A pergunta essencial é: que mundo construímos, que mundo eu quero, e que mundo nossos filhos, futuros adultos vão herdar?

 

*Ethos: conjunto de valores, princípios e aspirações que dão origem a atos e atitudes.

 

Recorro a um conhecimento ancestral da essência humana, e convido a lerem a fábula sobre o cuidado essencial, escrita no século I a.C como fonte de inspiração para a nossa reflexão-ação no tempo presente.

 

O Cuidado Essencial

"Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma ideia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter.

 

Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada.

 

De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: "Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura.

 

Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver.

 

E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil".

 

Versão em português, do original em latim de Gaius Julius Hyginus, extraída do livro, Saber Cuidar: ética do humano, compaixão pela terra, de Leonardo Boff, pág. 46.

 

É nesse contexto que essa série propõe uma reflexão para a ação no método VER “como comunidade”, JULGAR “como comunidade” e AGIR “como comunidade”. Pois, um fato é certo! Novos paradigmas estão em pauta e nós como indivíduos estamos fadados a escolher a luz e as sombras, e vamos ter que prestar contas por nossas escolhas, pelo mundo concreto que queremos. A partir do tempo presente, que sou, que sentido dou a vida? Que filhos temos, e que filhos teremos? 

 

Para reflexão e meditação: Salmo 85 – proteção, equilíbrio e compreensão para as dificuldades da vida.

Paz e bem

 

 

 

 

 

 

Please reload

Posts Em Destaque

Saber cuidar para novos tempos – II

29.4.2020

1/10
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags